• Jéssica Alvarenga

Uma economia do cuidado para a transformação



Este ano de 2020 foi marcado por discussões que colocaram em questão a importância da economia e das pessoas. Mas, afinal, quem vem primeiro? A pandemia e a quarentena tornaram explícita a relação entre essas duas esferas. Como então alcançar um equilíbrio?


A nossa atual economia de mercado funciona dentro de um único objetivo: O LUCRO. O que não entra nessa conta é a importância e o valor da vida das pessoas que constroem essa economia, na maioria das vezes deixadas de lado. No capitalismo da financeirização, a economia se impõe sobre todos nós. O resultado desse modus operandi afeta TODA a sociedade: quanto mais as empresas se preocupam apenas com os lucros, maior é a precarização do trabalho. Cada vez mais vemos surgir trabalhos precários com flexibilizações das leis trabalhistas. Se pensarmos em uma perspectiva global, essas consequências tomam proporções ainda maiores… Há uma crescente dívida do consumidor, prolongadas jornadas de trabalho, diminuição da assistência social, cortes em programas sociais, desregulamentações, aumento de emissões de gases do efeito estufa, climas extremos e negacionismo climático.


A política neoliberal que vemos se fortalecer visa unicamente liberalizar e globalizar a economia capitalista do lucro pelo lucro. A soberania dessa lógica de mercado se dá através de uma sociedade do consumo desenfreada, que acaba favorecendo uma minoria afortunada em detrimento das maiorias. Essa minoria concentra para si os privilégios e vantagens enquanto entrega aos que não têm posses os inconvenientes dos custos ambientais e sociais. Uma voracidade que está subjugando vidas em nome do dinheiro. Assim, torna-se fácil concluir que essa economia é insustentável, 2020 nos deixou essa máxima lição.


Por isso, a Economia do Cuidado (“Caring Economy”) é um assunto cada vez mais discutido e impulsionado pelo momento que estamos vivendo. Vemos crescer as tragédias ambientais (Mariana, Brumadinho, vazamento de óleo no Nordeste, desmatamento na Amazônia, queimadas no Pantanal), que ao contrário do que muitas pessoas imaginam, são sim devido a ação humana. Enquanto acompanhamos esses lamentos nos canais de notícias, também observamos de perto o aumento de pessoas sofrendo com as chamadas doenças do século XXI (depressão, ansiedade, crise de pânico, burnout), que surgem devido à constante aceleração das nossas vidas, muitas vezes imposta por essa sociedade do consumo com largas escalas de trabalho, pressão e estresse.


Nota-se uma espiral negativa a partir da economia de mercado atual, nos levando a uma desvalorização cada vez maior do trabalho e da vida. No entanto, a economia por definição e prática é realizada por pessoas e não existe sem elas. Não é possível imaginar que uma economia possa se desenvolver independente das pessoas. Sendo assim, necessitamos URGENTE de uma prática econômica que ponha no centro de suas preocupações não o lucro, mas a valorização da vida das pessoas, a dignidade, a solidariedade, podendo assim reestruturar nossa trama comunitária de cuidados.


Algumas de vocês devem estar se perguntando:

“Mas se não vamos nos preocupar com o lucro, como faremos para sobreviver?


Sim, o lado financeiro precisa ser considerado! Sem uma saúde financeira, nenhum negócio vai adiante. O conceitotriple bottom line argumenta que para algo ser sustentável tem que haver um equilíbrio entre o social (pessoas), o ambiental (planeta) e o econômico (financeiro). A intersecção entre essas esferas é a famosa SUSTENTABILIDADE. Ou seja, para existir uma saúde financeira, precisa-se existir PRIMEIRO saúde humana, que consequentemente precisa de um meio-ambiente equilibrado. Nesse sentido, a Economia do Cuidado surge para dar uma perspectiva mais ampla e assertiva de alinhamento entre esses três paradigmas.


Para nós seres humanos, o cuidado é a base da sobrevivência.

Os filhos de humanos são INCAPAZES de sobreviver sem os cuidados dos pais e isso é resultado da nossa evolução biológica na Terra. Cuidar é o nosso pilar.


Vemos o movimento da Economia do Cuidado criar alternativas no mercado atual através de diversas áreas: a Economia Donut e Regenerativa, o FIB (Felicidade Interna Bruta), os negócios de Impacto Positivo, os trabalhos colaborativos, o próprio desenvolvimento sustentável. A Economia do Cuidado começa com a relação de TROCA entre as pessoas. Se a relação de dar e receber é justa, ali se mantém o cuidado. Tudo isso está relacionado com as escolhas que fazemos, ou seja, os produtos que colocamos para dentro das nossas casas, onde investimos nosso dinheiro - as marcas que apoiamos - e até a comida que comemos.


Outro movimento que engloba o cuidado é o feminista. Durante os anos 80, a economia feminista escancarou a necessidade de “colocar a vida no centro” e isso trouxe o cuidado para um cenário cotidiano. A economia feminista coloca em discussão a aceleração das nossas vidas em relação à lógica do lucro em primeiro lugar. Nós mulheres estamos sempre buscando melhores caminhos para atender a necessidade das pessoas. Portanto, a relação desses dois movimento “Economia do Cuidado” e “Feminismo” é UMBILICAL!


Já que existe uma relação direta desses dois universos, não podemos deixar de frisar a importância do reconhecimento de que nós mulheres estamos EXAUSTAS, graças a essa lógica de mercado capitalista-patriarcal.


Para conseguirmos cuidar das pessoas, precisamos primeiramente olhar para nós mesmas nos mínimos detalhes diários (dormir bem, se alimentar bem, meditar, fazer exercícios, ajustar a rotina, nutrir as relações sociais, reconhecer companheiras e companheiros, dar e receber amor).


No Brasil, vemos a Economia do Cuidado florescer em cooperativas (setores que não são puramente uma organização com fins lucrativos, nem puramente filantrópicos) e também nos demais negócios de impacto positivo, ou seja, que buscam solucionar problemas no mercado através de uma perspectiva justa social e regeneração ambiental. Geralmente, os negócios de economia circular colocam no centro desse círculo a vida, seja ela das pessoas ou do planeta.


A Brisa Slow é um negócio de impacto positivo. Nossas escolhas são tomadas a partir do impacto que queremos gerar à nossa comunidade e ao nosso ecossistema. O trabalho é realizado COM a rede, o desenvolvimento é de todas e todos e cada um no seu ritmo. Os pagamentos são justos e todo o processo é feito em harmonia com nossa inspiradora natureza. Caso a prioridade do negócio fosse o lucro, as escolhas seriam muito diferentes, desde à fibra até o produto final. Somos mulheres que acreditamos no poder de transformação do design como sendo uma área criativa que precisa assumir o compromisso de criar outros meios e modos de fazer economia. É nisso que acreditamos e é com isso que pretendemos ressignificar a lógica do mercado de lucro: através do cuidado!



S O B R E A A U T O R A

Jéssica Alvarenga

Bióloga, estudante de design de moda, estagiária na Brisa, apaixonada por trabalhos manuais, entusiasta do Bem Viver e ativista por um

futuro mais consciente.



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