• Jéssica Alvarenga

Permacultura e agroecologia como fundamentos de existência


Produção da Brisa Slow - Malha de algodão orgânico da Justa Trama

Você costuma se questionar de onde vem o alimento que consome?


Infelizmente, muito do que é comercializado em redes de supermercado é fruto da monocultura agrícola. As monoculturas compreendem grandes extensões de terra com o cultivo de apenas uma espécie vegetal. Os maiores cultivos de monocultura no Brasil (soja, cana de açúcar, milho, arroz e algodão) servem massivamente para alimentar animais de abate, o mercado de biocombustível, a produção de fibras e fios de algodão e a indústria dos alimentos ultraprocessados. Essa agricultura de grande escala, em grande parte transgênica, é voltada para a exportação. No nosso país permanecem apenas os solos degradados, pobres em nutrientes e contaminados por agrotóxicos.


Saber a procedência do que comemos é tão importante quanto saber a procedência do que vestimos, afinal, a maior parte do algodão das roupas comercializadas é plantado em grandes latifúndios. Essa e muitas outras preocupações conduziram o surgimento da Brisa, bem como moldaram os nossos valores de existência. Escolher trabalhar com fibras naturais orgânicas, como o algodão agroecológico da Justa Trama, é uma forma de resistir ao sistema de monoculturas e ao mesmo tempo fomentar a justiça social, a agricultura familiar e a regeneração dos nossos ecossistemas produtivos, acolhendo toda e qualquer diferença para ampliar nossa diversidade. Escolher trabalhar com produções orgânicas e agroflorestais é, portanto, lutar por existência!

Mas essa preocupação com a origem do que consumimos não é de agora. Nos anos 70, um movimento preocupado com a regeneração dos sistemas agrícolas e do planeta tomou forma: a permacultura. Ela nasceu na Austrália quando Bill Mollison e David Holmgren, dois ecologistas, decidiram criar ecossistemas produtivos florestais para substituir as monoculturas de trigo e soja que causavam (e continuam causando!) enormes danos ambientais. Após muito observar a natureza, os cientistas descreveram a permacultura como uma solução possível para a criação de sistemas altamente produtivos, estáveis e regenerativos nos ecossistemas locais. O conceito de permacultura chega ao Brasil nos anos 80 quando Mollison trouxe para Porto Alegre o primeiro curso de formação de permacultores.


Apesar de não ter um caráter partidário, a Permacultura é altamente política, pois questiona a nossa organização em sociedade e o nosso modelo econômico baseado no consumo exacerbado e consequente acúmulo de bens. Até hoje, o que alimenta nossa sociedade do consumo são os recursos não renováveis como carvão, gás natural e, principalmente, petróleo, ou seja, um sistema de existência finita. Gastamos cada vez mais energia para extrair petróleo, mais do que a própria energia que o petróleo pode gerar, ou seja, vivemos uma economia não regenerativa e passível de autodestruição. Após 50 anos do surgimento da permacultura, os maiores problemas que causamos ao nosso planeta continuam sendo, em sua grande maioria, devido à queima de combustíveis fósseis e à produção de alimento através do agronegócio com seu modelo extrativista de commodities (monoculturas e uso intensivo de agrotóxicos).


Mas afinal, qual é a definição de permacultura

e quais são os princípios que nos espelhamos dentro da Brisa?


DEFINIÇÃO DE PERMACULTURA:

A permacultura é um sistema de design para a criação e manutenção consciente de ecossistemas produtivos agrícolas baseado no pensamento sistêmico aplicado. Tendo a natureza como inspiração, a permacultura cria ambientes humanos sustentáveis, mantendo a diversidade, a estabilidade e a resiliência dos ecossistemas. Através de ferramentas e técnicas bem apuradas que refletem a sistematização do conhecimento ancestral das comunidades tradicionais (indígenas, quilombolas e campesinos) bem como o esforço de pesquisadores, as práticas permaculturais constroem sistemas que se retroalimentam e, por isso, fazem prosperar o planeta e a humanidade.


PRINCÍPIOS ÉTICOS QUE NOS INSPIRAM:

A permacultura é fundamentada em valores de relação com a vida.

1. “Cuidado com a Terra”, ou seja, com o meio ambiente: todos os sistemas de vida no planeta devem prosperar. Esse princípio nos conduziu a trabalhar em harmonia com a natureza através de uma produção pequena e circular, ou seja, nossas peças (todas de matéria prima orgânica), ao fim de sua vida útil, podem voltar a fazer parte da terra através do processo de compostagem.


2. “Cuidado com as Pessoas”: fornecer acesso para que as pessoas tenham os recursos necessários para sua existência. Esse princípio nos conduz para relações de trabalho mais justas em que toda a cadeia de produção é bem remunerada. Um dos nossos pilares dentro da Brisa é o auto-cuidado feminino, acreditamos que nós mulheres somos uma potência para revolucionar o cuidado com a Terra, mas para isso precisamos apreciar o cuidado com nós mesmas.


3. “Partilha Justa”: propõe uma regulação das nossas necessidades de consumo, evitando o acúmulo de materiais e incentivando a repartição dos excedentes. Nossa maior preocupação dentro da Brisa é a filosofia do Essencialismo, uma busca diária e subjetiva para descobrir o que verdadeiramente faz sentido para cada uma de nós.


É bem comum confundirmos permacultura com agroecologia e faz bastante sentido que isso aconteça, pois, de fato, essas duas práticas estão bem relacionadas. Ambos são movimentos que questionam a cultura existente e constroem sistemas produtivos levando em consideração aspectos da ecologia, mas, apesar dessas semelhanças, não são exatamente a mesma coisa.


A agroecologia, ao contrário da permacultura, não tem um início muito bem definido. A prática começa a ganhar forte importância no Brasil a partir dos anos 90 através da Via Campesina e os movimentos do campo. Apesar de sua origem e práticas difusas, a agroecologia é sobretudo um movimento político popular com foco em questões sociais para além dos movimentos ambientais. O discurso da agroecologia não se baseia tanto nas práticas e técnicas agrícolas, pois quase sempre é uma bandeira levantada por povos com grandes dificuldade de existência, como indígenas, sem terra e pequenos agricultores. Entretanto, configura-se um movimento mais organizado e politizado que a permacultura, pois rende projetos de leis e políticas públicas. Já a permacultura tem um surgimento marcado, um crescimento bem direcionado (através dos curso de formação de permacultores) e anárquico, mas ainda é uma prática desconhecida e distante da maior parte do povo.

Algodão Orgânico Colorido Naturalmente

A produção do algodão orgânico no Brasil pela Justa Trama é realizada majoritariamente pela agricultura familiar e por produtores campesinos em assentamentos do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Esse algodão não é apenas orgânico, mas também agroecológico, ou seja, ali está sendo preservada a matriz cultural e ambiental da região, conferindo cuidado com a terra, reforma agrária e segurança alimentar. Apoiar toda essa cadeia de produção justa significa respeitar as diversidades, bem como ter uma relação mais cuidadosa com a nossa casa. As pessoas que trabalham no campo precisam ser bem remuneradas, pois o(a) agricultor(a) passam mais horas cuidando manualmente das plantações contra as pragas dos algodoeiros, diferente da monocultura onde todo o sistema é feito por máquinas e com uso intensivo de agrotóxicos.


Por isso a roupa orgânica é mais cara, pois ela entrega valor à vida, evitando a contaminação do solos, das águas e do nosso próprio corpo.

A roupa orgânica cuida das pessoas e cura o planeta!


Tanto a permacultura quanto a agroecologia fornecem soluções fundamentais para revalorização do trabalho rural e a regeneração do nosso ambiente. A partir do apanhado sobre esses dois movimentos conseguimos perceber que para além dos conceitos, ambos constroem uma filosofia de vida que questiona a nossa conexão com o meio ambiente e com outros seres humanos. O ensinamento do respeito à terra e aos ciclos naturais, da autonomia e da dignidade à vida nos move para uma percepção mais justa e próspera da existência humana neste planeta.


São nesses ensinamentos que a Brisa se baseia para existir. Acreditamos na desconstrução da conformidade em prol de narrativas ecológicas que mudam nossos pensamentos, nossas ações e nosso sistema de consumo. Saber quem plantou a matéria prima que escolhemos usar nas nossas roupas e saber quem costurou nossas peças é um orgulho enorme e é nisso que acreditamos! Assim, colocando a vida no centro das nossas preocupações criamos um movimento de mudança que acolhe a lógica do cuidado.


Não podemos nunca esquecer que somos parte de um grande sistema, por isso,

é importante atuarmos para manter ele vivo dentro da lógica

da abundância e da cooperação.


Brisa - Jéssica Alvarenga


S O B R E A A U T O R A

Jéssica Alvarenga

Bióloga, estudante de design de moda, estagiária na Brisa, apaixonada por trabalhos manuais, entusiasta do Bem Viver e ativista por um

futuro mais consciente.



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